Nos dias 28 e 29 de outubro, em Palma, acontecerá a pré-conferência do FAOR sobre Mudanças Climáticas,
a V Conferência regional do FAOR acontecerá ano que vem, 2012, em Macapá, Amapá.
Esse sítio é para mulheres da pan-amazonia debater, refletir, denunciar impactos negativos, promover mobilizações sobre as mudanças climáticas na pan-amazônia, mas também trazer informações, dados, discussões e propostas sobre questões globais que afetam o clima e as mulheres. Podem escrever em portugues e em espanhol.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
CARTA DO ACRE
Carta do Acre
Em defesa da vida, da integridade dos povos e de seus territórios e contra o REDD e a mercantilização da natureza
Estivemos reunidos em Rio Branco - AC, entre os dias 3 a 7 de outubro de 2011 na Oficina: Serviços Ambientais, REDD e Fundos Verdes do BNDES: Salvação da Amazônia ou Armadilha do Capitalismo Verde?
Estávamos presentes, organizações socioambientais, de trabalhadoras e trabalhadores da agricultura familiar, organizações de Resex e Assentamentos Extrativistas, de direitos humanos (nacionais e internacionais), organizações indígenas, organizações de mulheres, pastorais sociais, professores, estudantes e pessoas da sociedade civil comprometidas com a luta “dos de baixo”.
Percebemos a formação de um consenso em torno da ideia de que, desde 1999, com a eleição do governo da Frente Popular do Acre (FPA), foram tomadas iniciativas para a implantação de um “novo modelo” de desenvolvimento. Desde então, tal modelo é celebrado como primor de harmonia entre desenvolvimento econômico e conservação da floresta, de seus bens naturais e do modo de vida de seus habitantes. Com forte apoio dos meios de comunicação , de sindicatos, de ONGs promotoras do capitalismo verde na região amazônica, de bancos multilaterais, de oligarquias locais, de organizações internacionais, ele é apresentado como “modelo exitoso” a ser seguido por outras regiões do Brasil e do mundo.
Nesses dias, tivemos oportunidade de conhecer, em campo, algumas iniciativas tidas como referência no Acre. Vimos de perto os impactos sociais e ambientais do “desenvolvimento sustentável” em curso no estado. Visitamos o Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes, Fábrica de Preservativos NATEX e o Seringal São Bernardo (Projeto de Manejo Florestal Sustentável das Fazendas Ranchão I e II). As visitas nos colocaram diante de um cenário bastante distinto daquilo que é propagandeado nacional e internacionalmente.
No Seringal São Bernardo, pudemos constatar que o atendimento dos interesses das madeireiras se faz em detrimento dos interesses das populações locais e da conservação da natureza. Mesmo as questionáveis regras dos planos de manejo são desrespeitadas e, segundo dizem os moradores, com conivência de gestores estatais. No caso do Projeto de Assentamento Agroextrativista Chico Mendes Cachoeira (em Xapuri), constatamos que os moradores continuam subjugados ao domínio monopolista, atualmente vendem a madeira para a empresa “Laminados Triunfo” a R$90,00 m3, quando a mesma quantidade de madeira chega a valer até R$1200 na cidade. Por isso, endossamos a reivindicação de diversas comunidades pela suspensão dos famigerados projetos de manejo. Solicitamos a apuração de todas as irregularidades e exigimos a punição dos culpados pela destruição criminosa dos bens naturais.
Os dias em que tivemos reunidos foram dedicados ainda ao estudo sobre Serviços Ambientais, REDD e Fundos Verdes do BNDES. Compreendemos o papel dos Bancos (Banco Mundial, FMI, BID e BNDES), ONG´s comprometidas com o capitalismo verde, tais como WWF, TNC e CI; bem como o papel de outras instituições como ITTO, FSC e USAID, setores da sociedade civil e Governos Estadual e Federal que têm se aliado ao capital internacional na intenção de mercantilizar o patrimônio natural da Amazônia.
Ressaltamos que, além de desprovida de amparo constitucional, a Lei N° 2.308, de 22 de outubro de 2010, que regulamenta o Sistema Estadual de Incentivo a Serviços Ambientais foi criada sem o devido debate com os setores da sociedade diretamente impactados por ela, isto é, os homens e mulheres dos campos e floresta. Reproduzindo servilmente os argumentos dos países centrais, os gestores estatais locais a apresentam como uma forma eficaz de contribuir com o equilíbrio do clima, proteger a floresta e melhorar a qualidade de vida daqueles que nela habitam. Deve-se dizer, entretanto, que a referida lei gera “ativos ambientais” para negociar os bens naturais no mercado de "serviços ambientais", como o mercado de carbono . Trata-se de um desdobramento da atual fase do capitalismo cujos defensores, no intuito de assegurar sua reprodução ampliada, lançam mão do discurso ambiental para mercantilizar a vida, privatizar a natureza e espoliar as populações do campo e da cidade. Pela lei, a beleza natural, a polinização de insetos, a regulação de chuvas, a cultura, os valores espirituais, os saberes tradicionais, a água, plantas e até o próprio imaginário popular, tudo passa a ser mercadoria. A atual proposta de modificação do Código Florestal complementa esta nova estratégia de acumulação do capital, ao autorizar a negociação das florestas no mercado financeiro, com a emissão de "papéis verdes", a chamada Certidão de Cotas de Reserva Ambiental (CCRA). Desse modo, tudo é colocado no âmbito do mercado para ser gerido por bancos e empresas privadas.
Embora apresentada como solução para o aquecimento global e para as mudanças climáticas, a proposta do REDD permite aos países centrais do capitalismo manterem seus padrões de produção, consumo e, portanto, também de poluição. Eles continuarão consumindo energia de fontes que produzem mais e mais emissões de carbono. Historicamente responsáveis pela criação do problema, agora propõe m a “solução” que mais atende a seus interesses. Possibilitando a compra do “direito de poluir”, mecanismos como o REDD forçam as denominadas “populações tradicionais”is (ribeirinhos, indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco, seringueiros etc.) a renunciarem a autonomia na gestão de seus territórios.
Com isso, embaralham-se os papeis. O capitalismo, civilização mais predadora da história da humanidade, não representaria nenhum problema. Ao contrário, seria a solução. Os destruidores seriam agora os grandes defensores da natureza. E aqueles que historicamente garantiram a conservação natural são, agora, encarados como predadores e por isso mesmo são criminalizados. Não surpreende, portanto, que recentemente o Estado tenha tornado mais ostensiva a repressão, a perseguição e até expulsão das populações locais de seus territórios. Tudo para assegurar a livre expansão do mercado dos bens naturais.
Com o indisfarçável apoio estatal, por esse e outros projetos o capital hoje promove e conjuga duas formas de re-territorialização na região amazônica. De um lado, expulsa povos e comunidades do território (como é o caso dos grandes projetos como as hidrelétricas), privando-os das condições de sobrevivência. De outro, tira a relativa autonomia daqueles que permanecem em seus territórios, como é o caso das áreas de conservação ambiental. Tais populações até podem permanecer na terra, mas já não podem utilizá-la segundo seu modo de vida.Sua sobrevivência não seria mais garantida pelo roçado de subsistência - convertido em ameaça ao bom funcionamento do clima do planeta -, mas por “bolsas verdes”, que, além de insuficientes, são pagas para a manutenção da civilização do petróleo.
Cientes dos riscos que tais projetos trazem, rechaçamos o acordo de REDD entre Califórnia, Chiapas, Acre que já tem causado sérios problemas a comunidades indígenas e tradicionais, como na região de Amador Hernández, em Chiapas, México. Por isso nos solidarizamos com as populações pobres da Califórnia e Chiapas que já têm sofrido com as consequências. Solidarizamo-nos também com os povos indígenas do TIPNIS, na Bolívia, sob ameaça de terem seu território violado pela estrada que liga Cochabamba a Beni financiada pelo BNDES.
Estamos num estado que, nos anos de 1970-80, foi palco de lutas históricas contra a expansão predatória do capital e pela defesa dos territórios ocupados por povos indígenas e populações camponesas da floresta. Lutas que inspiraram muitas outras no Brasil e no mundo. Convertido, porém, a partir do final da década de 1990, em laboratório do BID e do Banco Mundial para experimentos de mercantilização e privatização da natureza, o Acre é hoje um estado “intoxicado” pelo discurso verde e vitimado pela prática do “capitalismo verde”. Dentre os mecanismos utilizados a fim de legitimar essa ordem de coisas, ganha destaque a manipulação da figura de Chico Mendes. A crer no que nos apresentam, deveríamos considerá-lo o patrono do capitalismo verde. Em nome do seringueiro, defende-se a exploração de petróleo, o monocultivo da cana-de-açúcar, a exploração madeireira em larga escala e a venda do ar que se respira.
Ante tal quadro, cumpre perguntar o que mais não caberia nesse modelo de “desenvolvimento sustentável”. Talvez em nenhum outro momento os pecuaristas e madeireiros tenham encontrado cenário mais favorável. É por essa razão que cremos necessário e urgente combatê-lo posto que, sob aparência de algo novo e virtuoso, ele reproduz as velhas e perversas estratégias de dominação e exploração do homem e da natureza.
Por fim deixamos aqui nossa reivindicação pelo atendimento das seguintes demandas: reforma agrária, homologação de terras indígenas, investimentos em agroecologia e economia solidária, autonomia de gestão dos territórios, saúde e educação para todos, democratização dos meios de comunicação. Em defesa da Amazônia, da vida, da integridade dos povos e de seus territórios e contra o REDD e a mercantilização da natureza. Estamos em luta.
Rio Branco, Acre, 07 de outubro de 2011.
Assinam esta carta:
Assentamento de Produção Agro-Extrativista Limoeiro-Floresta
Pública do Antimary (APAEPL)
Amazonlink
Cáritas - Manaus
Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular do Acre (CDDHEP/AC)
Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (CEPEDES)
Comissão Pastoral da Terra – CPT Acre
Conselho Indigenista Missionário – CIMI Regional Amazônia Ocidental
Conselho de Missão entre Índios – COMIN Assessoria Acre e Sul do Amazonas
Coordenação da União dos Povos Indígenas de Rondônia, Sul do Amazonas e Noroeste do Mato Grosso - CUNPIR
FERN
Fórum da Amazônia Ocidental (FAOC)
Global Justice Ecology Project
Grupo de Estudo sobre Fronteira e Identidade - Universidade Federal do Acre
Instituto Madeira Vivo (IMV-Rondônia)
Instituto Mais Democracia
Movimento Anticapitalista Amazônico - MACA
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC - Roraima)
Nós Existimos - Roraima
Núcleo Amigos da Terra Brasil
Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental -Universidade Federal do Acre.
Oposição Sindical do STTR de Brasiléia
Rede Acreana de Mulheres e Homens
Rede Alerta Contra o Deserto Verde
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bujarí (STTR - Bujarí)
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (STTR- Xapuri)
Terra de Direitos
União de Mulheres Indígenas da Amazonia Brasileira
World Rainforest Movement (WRM)
sábado, 17 de setembro de 2011
Etapas preparatórias para Rio+20 abordam ‘fundo verde’ e aspectos sociais das mudanças climáticas
Nessa semana, teve início as conversas para ampliar o financiamento do setor privado ao Fundo Verde, projetado para dispor de 100 bilhões de dólares por ano até 2020. Já em outubro, serão resgatados os aspectos sociais da Rio+20, com temas como Justiça Climática e Economia Solidária.
Ver no google: ONU, mudanças climáticas, Rio mais 20 - 9 de setembro 2011
Deroní Mendes
Geógrafa e coordenadora do projeto de Formação de Gestores Indígenas no Instituto Indígena Maiwu de Estudos e Pesquisas de MT
Adital
Sensibilizar e convencer a sociedade e o poder publica quanto a catástrofe ambiental, social e econômica que as mudanças climáticas e o aquecimento global representam para os povos e comunidades tradicionais depende de como esta realidade é abordada e mostrada nos meios de comunicação.
Os alertas dos pesquisadores tem se mostrado ineficientes e insuficientes para mostrar ao mundo e convencer os governantes quão grave é o aquecimento global e o quanto isso afeta a sobrevivência dessas comunidades. A impressão que se tem é que tais problemas ainda acontecerão futuramente. Todos se dizem preocupados e prometem estudar providências. Em breve.
É imprescindível um olhar diferenciado para as conseqüências das mudanças climáticas e aquecimento global sobre as populações rurais denominadas comunidades ou povos tradicionais, porque dependem não só da terra para o cultivo de espécies agricultáveis e para a criação de animais, mas principalmente porque elas apresentam um grau de dependência maior dos recursos naturais disponíveis no ecossistema onde vivem para a sobrevivência cultural, social, política religiosa e econômica do grupo que outros segmentos sociais.
As populações rurais não são iguais. Os povos tradicionais ainda têm no extrativismo uma importante fonte de sobrevivência, pois gerações após gerações construíram um vasto conhecimento sobre a dinâmica dos ecossistemas nos quais estão inseridos e a utilização dos recursos naturais disponíveis, pois além da necessidade da sobrevivência da geração presente, é preciso estabelecer regras de uso a fim de garantir que o uso não comprometa sobrevivência das futuras gerações. O uso e acesso devem estar ao alcance de todos os membros do grupo. E é extremamente importante para elas viver e sobreviver no território outrora ocupado por seus antepassados.
As comunidades tradicionais possuem um amplo conhecimento sobre a biodiversidade e o meio onde se localizam seus territórios. Nestas comunidades o uso das águas, da terra das florestas, e outros seres vivos estão intrinsecamente ligados a oferta de alimentos, bem como identidade cultural, social política religiosa e econômica do grupo com aquele território. Sendo assim não é difícil perceber que são os grupos mais vulneráveis aos impactos do aquecimento global e as mudanças climáticas.
É observando a dinâmica do tempo que sabem quando é o tempo de plantar, tempo de colher determinada planta, tempo de pescar determinado peixe, caçar determinado bicho. Através da vivência cotidiana aprenderam tudo ou quase tudo sobre a dinâmica do meio onde vivem cada espécie de plantas, animais, o regime de chuvas, a melhor época e lugar para plantar, pescar, coletar determinado fruto, etc.
"A gente tá aqui desde que aqui ainda era tudo mato. Tudo que a gente sabe a gente aprendeu com nosso pai, nossos tios, os antigos. Ele viram e foram aprendendo como que são as coisas aqui. Onde mora cada bicho. Onde tem cada planta. Onde tem mais peixes. Onde é lugar bom prá plantar. Qualquer nativo que senhora perguntar sabe essas coisas. Nós não estudou, mas desde criança tá vendo como que é. Como que os mais velhos faz. A gente vê, presta atenção e aprende. E gente nasceu e cresceu aqui,né?(...)
Distribuídos em diferentes regiões e estados, estima-se que atualmente no Brasil ultrapasse 8 milhões o total de indivíduos que se reconhecem como povos e comunidades tradicionais, nesse quesito estão incluídos os 242 etnias indígenas do Brasil, quilombolas, ciganos, pomeranos, ribeirinhos, quebradeiras de côco babaçu, seringueiros, pescadores artesanais, caiçaras, castanheiros e povos dos faxinais, dos gerais e dos fundos de pasto.
"(... ) Agora tá muito mudado por aqui. A nossa vida mudou. Não tem mais aquela fartura que tinha antes. E não to falando só de bichos porque agora o IBAMA proibiu nóis de caçar. Aqui tem muito peixe que não tem mais por os rios não tá mais desembocando no outro nem na cheia mais. Tem muita fruta que quase a gente não vê mais. Roça não ta dando mais camisa prá ninguém. Muita coisa já tem que comprar tudo na cidade. Tem gente que já nem planta mais. Já desanimou. Eu ainda faço, e vou continuar fazendo porque eu acho que a gente não pode perder a nossa tradição e qualquer um que quiser continuar fazendo sua rocinha e quiser semente crioula eu dou. Tá certo que não ta rendendo quase nada por que chove (...)".
É preciso dar voz estes povos e comunidades para que a sociedade brasileira e o mundo reconheça a importância e necessidade urgente de se promover o uso sustentável e racional da terra, água e demais recursos naturais são essenciais amenizar o aquecimento global e principalmente para a sobrevivência desses povos cujo modo de vida são responsáveis pela manutenção de grande parte das florestas que continuam em pé ainda hoje e pela diversidade biológica ainda presentes nos ecossistemas.
A mídia tem papel fundamental para que o estado reconheça que no contexto das mudanças climáticas os povos e comunidades tradicionais seus territórios o acesso e uso dos recursos naturais, a segurança alimentar e outros direitos sociais, ambientais, econômicos e culturais estão sendo desrespeitados, ameaçados ou destruídas por puro descaso e negligência do poder público para com o direito a cidadania destes povos pela ganância desenfreada muitos que acreditam que crescimento econômico é sinônimo e indicador de desenvolvimento de um município, estado, região ou país.
"( ) eu tenho prá mim que os grandes vai ter um dia que os grandes vai ver que é esse monte de pasto que ta acabando com a chuva e as vaca dele mesmo ta morrendo por causa disso. A gente não come capim. Capim não faz nem sombra pro boi. O que deixa a terra boa prá plantar é arvore. Eu penso assim, que a gente, os bichos os passarinhos, tudo precisa das arvores até os rios. A senhora pode ver que é em terra de mato alto que tem mais rios e chove mais. Por isso que terra de mato alto que é bom de fazer roça. A senhora pode ver que hoje nem chove mais igual no tempo antigo. Tem rio que já nem enche mais, aí os bichos vão embora. Muitos nativos também foram embora prá cidade tão lá morando na "arrebarde” trabalhando de pião porque não tem como ele sustentar a família aqui mais (...)".
Notas
1. As citações deste texto e as presentes no texto "A população rural na mídia no contexto das mudanças climáticas e aquecimento global” trata-se de depoimentos membros das comunidades tradicionais Nossa Senhora da Guia e Nossa senhora do Carmo na região conhecida como província Serrana entre os municípios de Cáceres e Porto Estrela no sudoeste de MT coletados entre 2004 e 2005 para o trabalho de conclusão da minha graduação que tratava do impacto na identidade cultural das populações tradicionais devido às transformações das terras de uso comum em terras de uso parcelado.
2. A Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais – PNCT (PL n. 7447/ 2010) define como povos e comunidades tradicionais "grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (...)”.
3. As populações rurais dos assentamentos de reforma agrária, não são consideradas comunidades tradicionais e sim populações migrantes, pois de modo geral são compostos por agricultores familiares de diversos municípios, estados e até regiões do país tendo estes um olhar diferenciado sobre o cultivo da terra e usufruto dos recursos naturais nela disponível.
*Deroní Mendes é filha de agricultores tradicionais do Vale do Guaporé, Geógrafa e coordenadora do projeto de Formação de Gestores Indígenas no Instituto Indígena Maiwu de Estudos e Pesquisas de MT
Os alertas dos pesquisadores tem se mostrado ineficientes e insuficientes para mostrar ao mundo e convencer os governantes quão grave é o aquecimento global e o quanto isso afeta a sobrevivência dessas comunidades. A impressão que se tem é que tais problemas ainda acontecerão futuramente. Todos se dizem preocupados e prometem estudar providências. Em breve.
É imprescindível um olhar diferenciado para as conseqüências das mudanças climáticas e aquecimento global sobre as populações rurais denominadas comunidades ou povos tradicionais, porque dependem não só da terra para o cultivo de espécies agricultáveis e para a criação de animais, mas principalmente porque elas apresentam um grau de dependência maior dos recursos naturais disponíveis no ecossistema onde vivem para a sobrevivência cultural, social, política religiosa e econômica do grupo que outros segmentos sociais.
As populações rurais não são iguais. Os povos tradicionais ainda têm no extrativismo uma importante fonte de sobrevivência, pois gerações após gerações construíram um vasto conhecimento sobre a dinâmica dos ecossistemas nos quais estão inseridos e a utilização dos recursos naturais disponíveis, pois além da necessidade da sobrevivência da geração presente, é preciso estabelecer regras de uso a fim de garantir que o uso não comprometa sobrevivência das futuras gerações. O uso e acesso devem estar ao alcance de todos os membros do grupo. E é extremamente importante para elas viver e sobreviver no território outrora ocupado por seus antepassados.
As comunidades tradicionais possuem um amplo conhecimento sobre a biodiversidade e o meio onde se localizam seus territórios. Nestas comunidades o uso das águas, da terra das florestas, e outros seres vivos estão intrinsecamente ligados a oferta de alimentos, bem como identidade cultural, social política religiosa e econômica do grupo com aquele território. Sendo assim não é difícil perceber que são os grupos mais vulneráveis aos impactos do aquecimento global e as mudanças climáticas.
É observando a dinâmica do tempo que sabem quando é o tempo de plantar, tempo de colher determinada planta, tempo de pescar determinado peixe, caçar determinado bicho. Através da vivência cotidiana aprenderam tudo ou quase tudo sobre a dinâmica do meio onde vivem cada espécie de plantas, animais, o regime de chuvas, a melhor época e lugar para plantar, pescar, coletar determinado fruto, etc.
"A gente tá aqui desde que aqui ainda era tudo mato. Tudo que a gente sabe a gente aprendeu com nosso pai, nossos tios, os antigos. Ele viram e foram aprendendo como que são as coisas aqui. Onde mora cada bicho. Onde tem cada planta. Onde tem mais peixes. Onde é lugar bom prá plantar. Qualquer nativo que senhora perguntar sabe essas coisas. Nós não estudou, mas desde criança tá vendo como que é. Como que os mais velhos faz. A gente vê, presta atenção e aprende. E gente nasceu e cresceu aqui,né?(...)
Distribuídos em diferentes regiões e estados, estima-se que atualmente no Brasil ultrapasse 8 milhões o total de indivíduos que se reconhecem como povos e comunidades tradicionais, nesse quesito estão incluídos os 242 etnias indígenas do Brasil, quilombolas, ciganos, pomeranos, ribeirinhos, quebradeiras de côco babaçu, seringueiros, pescadores artesanais, caiçaras, castanheiros e povos dos faxinais, dos gerais e dos fundos de pasto.
"(... ) Agora tá muito mudado por aqui. A nossa vida mudou. Não tem mais aquela fartura que tinha antes. E não to falando só de bichos porque agora o IBAMA proibiu nóis de caçar. Aqui tem muito peixe que não tem mais por os rios não tá mais desembocando no outro nem na cheia mais. Tem muita fruta que quase a gente não vê mais. Roça não ta dando mais camisa prá ninguém. Muita coisa já tem que comprar tudo na cidade. Tem gente que já nem planta mais. Já desanimou. Eu ainda faço, e vou continuar fazendo porque eu acho que a gente não pode perder a nossa tradição e qualquer um que quiser continuar fazendo sua rocinha e quiser semente crioula eu dou. Tá certo que não ta rendendo quase nada por que chove (...)".
É preciso dar voz estes povos e comunidades para que a sociedade brasileira e o mundo reconheça a importância e necessidade urgente de se promover o uso sustentável e racional da terra, água e demais recursos naturais são essenciais amenizar o aquecimento global e principalmente para a sobrevivência desses povos cujo modo de vida são responsáveis pela manutenção de grande parte das florestas que continuam em pé ainda hoje e pela diversidade biológica ainda presentes nos ecossistemas.
A mídia tem papel fundamental para que o estado reconheça que no contexto das mudanças climáticas os povos e comunidades tradicionais seus territórios o acesso e uso dos recursos naturais, a segurança alimentar e outros direitos sociais, ambientais, econômicos e culturais estão sendo desrespeitados, ameaçados ou destruídas por puro descaso e negligência do poder público para com o direito a cidadania destes povos pela ganância desenfreada muitos que acreditam que crescimento econômico é sinônimo e indicador de desenvolvimento de um município, estado, região ou país.
"( ) eu tenho prá mim que os grandes vai ter um dia que os grandes vai ver que é esse monte de pasto que ta acabando com a chuva e as vaca dele mesmo ta morrendo por causa disso. A gente não come capim. Capim não faz nem sombra pro boi. O que deixa a terra boa prá plantar é arvore. Eu penso assim, que a gente, os bichos os passarinhos, tudo precisa das arvores até os rios. A senhora pode ver que é em terra de mato alto que tem mais rios e chove mais. Por isso que terra de mato alto que é bom de fazer roça. A senhora pode ver que hoje nem chove mais igual no tempo antigo. Tem rio que já nem enche mais, aí os bichos vão embora. Muitos nativos também foram embora prá cidade tão lá morando na "arrebarde” trabalhando de pião porque não tem como ele sustentar a família aqui mais (...)".
Notas
1. As citações deste texto e as presentes no texto "A população rural na mídia no contexto das mudanças climáticas e aquecimento global” trata-se de depoimentos membros das comunidades tradicionais Nossa Senhora da Guia e Nossa senhora do Carmo na região conhecida como província Serrana entre os municípios de Cáceres e Porto Estrela no sudoeste de MT coletados entre 2004 e 2005 para o trabalho de conclusão da minha graduação que tratava do impacto na identidade cultural das populações tradicionais devido às transformações das terras de uso comum em terras de uso parcelado.
2. A Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais – PNCT (PL n. 7447/ 2010) define como povos e comunidades tradicionais "grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (...)”.
3. As populações rurais dos assentamentos de reforma agrária, não são consideradas comunidades tradicionais e sim populações migrantes, pois de modo geral são compostos por agricultores familiares de diversos municípios, estados e até regiões do país tendo estes um olhar diferenciado sobre o cultivo da terra e usufruto dos recursos naturais nela disponível.
*Deroní Mendes é filha de agricultores tradicionais do Vale do Guaporé, Geógrafa e coordenadora do projeto de Formação de Gestores Indígenas no Instituto Indígena Maiwu de Estudos e Pesquisas de MT
Dispostas a superar a mudança climática
“Quem vê uma mulher sentada em um posto de gasolina vendendo pão acha que esta é uma boa forma de ganhar dinheiro”, observou Johansson. “Mas, ela se levanta às três da manhã para preparar a farinha, o desjejum, fazer o pão, trabalhar na terra por duas horas e depois caminhar dez quilômetros até o posto, onde fica todo o dia para vender seu produto e obter o equivalente a US$ 0,75. Depois volta para casa para cozinhar, limpar e se preparar para recomeçar”, acrescentou Johansson.
Para essas mulheres, que já têm uma vida difícil, inundações, secas e as altas temperaturas são um verdadeiro problema que prejudica sua colheita e capacidade de abastecer o lar. “Os homens não costumam ter essa dinâmica de trabalhar e dormir, então não prestam tanta atenção quando se discute sobre a terra cultivável em painéis de adaptação à mudança climática. Por outro lado, as mulheres dizem que primeiro é necessário garantir a produção de alimentos básicos para a família”, explicou Johansson.
“Elas tendem a se interessar por temas de conservação e irrigação por gotejamento por ser vital conseguir maior produtividade. Costumam perguntar sobre como planejar a plantação com inundações ou como diversificar os cultivos”, destacou a diretora da CES. Esta organização Johansson fundou em 2007 junto com outras mulheres. Ela também ajudou as mulheres a fortalecerem pequenos negócios informais ou a iniciar um.
“Nosso enfoque é de baixo para cima porque, se os doadores fecharem os bolsos amanhã, a proposta continuará funcionando. A maioria dos programas governamentais ou financiados por doadores fracassam porque não perguntam às pessoas o que querem e isso as leva a adquirirem o senso de propriedade”, explicou Johansson.
A CES organizou grupos de ajuda mútua tomando o exemplo de iniciativas realizadas na Índia. As comunidades se organizaram em cooperativas para enfrentar as consequências da mudança climática ou conseguir economias para iniciar um negócio. “Nosso foco é duplo. Queremos melhorar a segurança alimentar, mas se também há a possibilidade de criar uma empresa, por que não? Nos interessa ajudar colocar ideias sem prática”, disse Johansson.
As mulheres se interessam pelo cultivo de conservação e em melhorar os métodos de irrigação para espécies que requerem solos secos e, nesse processo, começam a plantar de outra maneira. Além disso, “cultivam plantas diferentes que se adaptam melhor às distintas condições climáticas ou têm mais possibilidades de mercado e optam pela aquicultura. A mudança climática também oferece oportunidades”, afirmou.
“Os países podem adaptar projetos e adequá-los às suas condições particulares”, respondeu Martha Mwandingi, diretora de meio ambiente e energia do Pnud, ao ser consultada sobre a possibilidade de esses programas serem aplicados a outros países da África subsaariana. “Há outras ideias que servem do jeito que estão, como o conjunto de ferramentas com informação sobre mudança climática que criamos”, disse Mwandingi, encarregada de programas de adaptação à mudança climática, gestão de ecossistemas e biodiversidade, que inclui a proposta da CES.
“A mudança climática prejudicará mais as mulheres devido aos múltiplos papéis que desempenham em suas famílias, de agricultoras a provedoras e administradoras dos recursos nacionais do país”, acrescentou Mwandingi. Segundo ela, “a mudança climática exacerba a carga das mulheres porque se perpetuam papéis de gênero discriminatórios. O fenômeno ataca muita gente no mundo, mas especialmente as mais vulneráveis, grupo no qual se encontra a população feminina”, ressaltou.
Mwandingi acredita que é preciso investigar mais sobre a participação das mulheres nos processos de decisão para saber, por exemplo, quantas integram a Comissão Nacional sobre Mudança Climática. “Em matéria de decisões, na Namíbia há duas mulheres em cargos importantes, as ministras do Meio Ambiente e das Finanças, bem como muitas diretoras de agências governamentais ou institutos de pesquisa”, destacou.
“Contudo, a situação deve ser olhada mais de perto, por exemplo, qual a participação das mulheres nos diferentes centros científicos dedicados à mudança climática na África meridional? E como elas incidem em decisões sobre o tipo de dados que coletam e os modelos que se cria?”, acrescentou.
A Aliança Global de Gênero e Mudança Climática, criada na Conferência sobre Mudança Climática da Organização das Nações Unidas, realizada em Baliem, em 2007, deveria ser revista no âmbito regional, segundo Mwandingi. A Aliança “trabalha para garantir que as políticas sobre mudança climática, as decisões e as iniciativas no âmbito global, regional e nacional tenham um perfil de gênero”, segundo se pode ler em seu site na internet.
Envolverde/IPS
ASPECTOS DE GÊNERO NA MUDANÇA CLIMÁTICA
Dias 22 a 25 de setembro acontecerá em Belém uma oficina preparatória para a Conferência do FAOR que acontecerá em Macapá e tem como tema as Mudanças Climáticas.
Depois compartilharemos os resultados.
ARTIGO
Depois compartilharemos os resultados.
ARTIGO
As normas sociais e culturais ajudaram a atribuir diferentes papéis e responsabilidades a homens e mulheres. Enquanto tradicionalmente, tanto no Ocidente como nos países em desenvolvimento, o funcionamento do lar, o cuidado diário das crianças, de doentes e idosos são tarefas femininas, os homens costumam ter um trabalho fora da casa. Também vemos que, especialmente nos países em desenvolvimento, as mulheres se encarregam da produção agrícola e de efetuar alguma atividade geradora de renda no setor informal. Nas últimas décadas tornou-se fez evidente que as mulheres desempenham um papel importante no uso e manejo dos recursos naturais. Em geral, elas são responsáveis pela provisão de água e biomassa energética para o lar. Parece lógico que também sejam mais afetadas pelas mudanças na disponibilidade e qualidade dos recursos naturais. Se não houver água potável ou combustível disponível perto de casa, você tem que caminhar longas distâncias —com freqüência com cargas pesados sobre terrenos irregulares—. Se houver menos comida disponível, elas são sempre as últimas em comer, ficará menos comida disponível para você. Com frequência, a má saúde das mulheres também é colocada sob maior pressão. Esta interface entre o meio ambiente (eco-esfera) e a sociedade humana (meio social), onde ocorrem as relações de gênero, torna-se mais evidente se ocorrer a mudança climática. Afinal de contas, a produção agrícola se encontra sob pressão, a água potável e (biomassa) a energia são mais escassas, o calor e as doenças vão aumentando, e os desastres climáticos tornam-se mais frequentes. A carga e o estresse nas mulheres são mais pesados, e suas oportunidades de receber capacitação ou educação é cada vez menor. Além disso, também há um aumento da violência. Um estudo muito discutido, elaborado pela London School of Economics e outros (Neumayer / Plümper, 2007), indica que em 141 desastres naturais no período compreendido entre 1981 e 2002, a probabilidade de morte foi significativamente maior para homens. Quanto mais forte o desastre, maior foi a diferença. E quanto maior for a disparidade de gênero, maior é o impacto diferenciado por gênero. Os autores concluíram que as vulnerabilidades específicas de gênero, socialmente construídas, são as principais causas. Assim mesmo, nessas circunstâncias, a mulher não é simplesmente uma vítima. Em quase todas as situações das quais participei ou estudei, vi como as mulheres se reúnem e se organizam. É claramente visível que são ativistas e líderes na luta contra a mudança climática, a gestão de desastres e a reconstrução. Também participam ativamente do restabelecimento de sua sociedade. Há inúmeros exemplos, nos quais as mulheres participam ativamente na proteção do clima e na adaptação às condições climáticas mutáveis. Outra consideração importante é o grau em que as mulheres e os homens contribuem de maneira diferenciada à mudança climática. Vários estudos europeus recentes sugerem que o comportamento dos homens contribui ao aquecimento global. O estudo realizado por Gerd Johnsson-Latham (2007) da Suécia mostra que as mulheres seguem um estilo de vida mais sustentável, causando um impacto ambiental menor. Neste caso também, os papéis socialmente construídos constituem um fator importante. | ||
| Autor: Irene Dankelman Fonte: Mirada Global |
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
EVENTOS IMPORTANTES SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS
27/09/2011
Seminário Panamazônico
sobre Mudanças
Climáticas - Bolívia,
Brasil e Peru
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10/09/2011
Seminário de Atingidos
por Eventos Climáticos
Extremos
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25/08/2011
Seminário Regional
sobre Mudanças
Climáticas na Amazônia
- Amazonas e Roraima
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Seminário Panamazônico
sobre Mudanças
Climáticas - Bolívia,
Brasil e Peru
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10/09/2011
Seminário de Atingidos
por Eventos Climáticos
Extremos
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25/08/2011
Seminário Regional
sobre Mudanças
Climáticas na Amazônia
- Amazonas e Roraima
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